Uma por Todas e Todas por Uma: a propósito das eleições presidencias dos EUA

Continua a verificar-se, em todas as partes do Mundo, que a maioria de chefes de Governo é homem. Facto que se reflete em todas as demais camadas sociais, bastando, por exemplo, olhar para o número de mulheres que figuram como sócias nas sociedades de advogados ou como CEO de grandes empresas.



Kamala Harris fez História ao ser eleita a primeira mulher afrodescendente e de origem asiática-americana que irá ocupar o cargo de Vice-Presidente dos Estados-Unidos da América.

Há expectativas de que Harris ainda possa vir a ser daqui a 4 anos (2024) a primeira mulher eleita para o lugar de Presidente dos Estados-Unidos da América.

Como salientou Kamala, no seu discurso de aceitação da nomeação a Vice-Presidente, em agosto de 2020, o facto de lhe ter sido possibilitada a entrada para a História reflete sobretudo o esforço das mulheres que lutaram pelo direito ao voto. Na oportunidade ressaltou que “O facto de estar aqui esta noite é uma prova da dedicação das gerações anteriores à minha” (…) “elas organizaram-se, manifestaram-se e lutaram – não apenas para poderem votar, mas também para fazerem parte do processo de decisão”.


A ascensão e a exceção de Kamala reflete o caminho tortuoso e difícil que é para as mulheres se fazerem presentes na cena política. Em Portugal, por exemplo, em 45 anos de democracia e um total de vinte e um Governos Constitucionais, ainda não houve nenhuma mulher a ocupar o cargo de Presidente da República sendo que o cargo de Primeiro-Ministro teve apenas Maria de Lurdes Pintasilgo como ocupante da cadeira durante o período do V Constitucional, mandato que durou menos de seis meses, de 1 de agosto de 1979 a 3 de janeiro de 1980.


O Atual Governo conta com 8 ministras e 11 ministros. A nível Parlamentar, há, atualmente, 91 mulheres Deputadas num total de 230 Deputados. Nunca houve tantas mulheres eleitas à Assembleia da República e a ocupar cargos no Governo o que pode significar um grande avanço para um país conservador e essencialmente patriarcal. Verifica-se que tem sido realizada uma longa caminhada, mas os resultados alcançados estão consolidados na democracia portuguesa. Ainda assim, apesar de o muito que se obteve continuamos aquém de uma verdadeira igualdade de género no acesso aos altos cargos políticos e públicos.

Esta questão não assume relevância exclusivamente no panorama político português. Continua a verificar-se, em todas as partes do Mundo, que a maioria de chefes de Governo é homem. Facto que se reflete em todas as demais camadas sociais, bastando, por exemplo, olhar para o número de mulheres que figuram como sócias nas sociedades de advogados ou como CEO de grandes empresas.



Nesta ambiência, a eleição de Kamala assume especial relevância, não apenas por ser mulher, mas também em razão da sua origem africana, indiana e americana, sinalizando não só a necessária inclusão das mulheres na política e em cargos de poder, como também a indispensável quebra de paradigmas e preconceitos com grupos ditos minoritários.

A nível nacional, não se tem lutado apenas para que haja uma maior igualdade entre géneros a nível político, mas também para que não haja discriminação entre raças. O Parlamento e a Composição do Governo, já começam, ainda que lentamente, a refletir tal realidade. Esperamos que tal atitude se venha a refletir noutros meios, a partir do exemplo político.

Tendo presente a influência que os Estados-Unidos da América exercem sobre os restantes países do mundo, também a nível sociocultural, será de perspetivar, alterações significativas ao nível da consolidação das políticas de igualdade de género à escala mundial, com impacto na concretização de uma sociedade igualitária, a qual, sem este impulso, não seria alcançável em menos de 100!


Assim, e num tom esperançoso, deixamos a seguinte questão para debate: será que a eleição de Harris fará com que mais mulheres, de todas as origens, e em todo o mundo, sejam eleitas para cargos de topo a nível político?