Uma breve reflexão sobre o necessário auxílio de pessoas idosas em Portugal

Portugal é o 5º país mais envelhecido do mundo. E, segundo os dados dos noticiários será, em 2050, o país mais envelhecido da União Europeia. Por um lado, significa que temos um país com maior riqueza pessoal, pois os mais velhos têm muito que ensinar aos mais jovens. Por outro, é uma situação preocupante, pois são os mais jovens que continuam a evolução e progressão da sociedade.

Foi neste contexto e com esta preocupação em mente que a Câmara de Lisboa aprovou em 2020 a criação de um projeto-piloto, denominado "Cuidadores nas Avenidas", que pretende dar respostas às carências dos idosos, deficientes e doentes mentais na capital. Um projeto desta amplitude já há muito que estava a ser pensado, tendo em conta a realidade que todos verificamos com o abandono de pessoas mais velhas e dos mais desfavorecidos.



Por vezes, a desatenção para com os mais velhos é derivada da vida frenética de todos os que os rodeiam. Mesmo que se queira enveredar por outro caminho, os infindáveis horários de trabalho podem dificultar o fomento de boas relações familiares e sociais. E, portanto, é de repensar em novas estratégias que minimizem as consequências destes fatores na vida dos mais velhos.


Os idosos estão, de certa forma, mais vulneráveis e suscetíveis a situações de carência financeira e emocional, estando mais sujeitos a situações de isolamento e depressões profundas, necessitando, com frequência, de um acompanhamento atento dos que os rodeiam.


Por isso, é de repensar em estratégias a nível nacional, como tem feito a Câmara de Lisboa, de acompanhamento de pessoas idosas, principalmente, das que têm uma idade mais avançada, ou das que sofrem de alguma anomalia psíquica ou física. E esta necessidade é ainda mais urgente quando se pensa em pessoas que não têm descendência direta ou familiares próximos, uma vez que a sua ausência poderá passar mais despercebida, dependendo do grau de sociabilidade das mesmas.


O aumento de acesso a atividades físicas, ou recreativas, tanto ao nível das artes, aprendizagem de novas línguas, possibilidade de passeios e viagens culturais, frequência de recitais, peças de teatro, cinemas, saraus e conferências, ou até, a possibilidade de debates e discussão de literatura, poderão ser boas estratégias para o constante desenvolvimento físico e psicológico dos mais idosos. Para além disso, poderia ser de pensar em descontos a aplicar em ginásios ou qualquer tipo de estabelecimento que fomente a atividade física, nomeadamente, estúdios de dança, courts de ténis, campos de padel ou de futebol.

Tal como salientado no site da APAV, os mais idosos são detentores de um conjunto muito vasto de direitos. De entre esses, são de destacar o direito a uma pensão social, se estes não tiverem efetuado descontos ou não aufiram rendimentos de outra natureza; o direito a um pensão de velhice, que se traduz num valor pago, mensalmente, aos beneficiários que atinjam a idade para ter acesso à mesma e que reúnam as condições exigidas; o direito a aceder a um complemento de dependência e a um complemento solidário para Idosos, e, ainda, acesso a um processo de comparticipação para lar.

Ademais, existem benefícios adicionais no que toca à saúde e à prevenção e reparação de situações de carência e desigualdade socioeconómica, para despesas de habitação, alimentação, medicamentos, etc.


Para além disso, acumulam-se muitos outros que se encontram salvaguardados na Constituição da República Portuguesa, assim como em legislação complementar, como o direito à saúde, o direito à educação, o direito à independência, o direito à informação, o direito ao trabalho, entre tantos outros.


Em suma, muitos são os direitos e os benefícios que os mais velhos podem usufruir, ainda que não exista uma devida publicitação destes. Todavia, ainda é necessário repensar num acompanhamento mais atento dos mais velhos, e da possibilidade de lhes conceder o acesso a atividades de forma gratuita, ou tendencialmente gratuita.


Como referiu Ray Bradburry no belíssimo livro “Licor de dente-de-leão” (“Dandelion wine”): “A razão pela qual os adultos e as crianças discutem é porque pertencem a diferentes raças. Olha para eles, diferentes de nós. Olha para nós, tão diferentes deles. Raças separadas, e nunca as duas se encontrarão”. Mas será mesmo assim? As crianças pensam que estão num mundo totalmente diferente dos mais velhos, e parece que entre eles existe um vácuo, um hiato temporal inexplicável entre as suas vidas, mas na verdade, essa não deve ser a conclusão a retirar. Basta analisarmos as relações de proximidade e cumplicidade que tantas vezes se fomentam entre os avós e os netos para percebermos que não estamos tão longe dos mais velhos assim, pois podemos aprender diariamente com eles, com as suas vivências, as suas crenças e com a sua experiência de vida, que devem servir como fonte de inspiração para nós.


Por conseguinte, faz sentido seguir o ideal de Jean Jacques Rousseau de que “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele”, e devemos proteger e respeitar os mais velhos, sendo fundamental reconhecer-lhes o valor que eles merecem, pois na realidade, não existe tanta diferença assim entre os mais jovens e os mais velhos, pois estes já tiveram a impulsividade e impaciência dos mais novos, e os mais novos, um dia, e se a vida lhes proporcionar, terão as vivências inesquecíveis e a sabedoria dos mais velhos e, quem sabe, um pouco da sua saudável “loucura” também.