Testes de Virgindade - Um Problema (d)e Exposição


A realidade é infeliz: locais espalhados pelo mundo que praticam determinados procedimentos denominados de “testes de virgindade”. Como o próprio nome indica, têm como intuito se verificar alguém não teve relações sexuais.


Essencialmente, estes passam por analisar o hímen – uma película dérmica e impermeável na entrada da vagina. E o resultado é simples de se confirmar: se o hímen estiver intacto, então a “paciente” não teve relações sexuais; por outro lado, se estiver rasgado ou possuir uma abertura de alguma forma, a resposta é a oposta. A primeira questão que se levanta é o fundamento médico para tal conclusão, na medida em que o hímen é um tecido que vai fragilizando com a idade, sobretudo pós-puberdade, e pode romper por variados tipos de atividade que recorra a movimentos mais intensos, tais como meros desportos. Ora, outra problemática que se retira é a da própria fisionomia do hímen. A verdade é que a maioria destes já tem uma pequena abertura que permite o escoamento de secreções menstruais – ou seja, já se encontra “aberto” – de tamanho variável, consoante a genética da pessoa em causa. Mais, há quem nasça com o mesmo completamente fechado – podendo ser necessário recorrer a cirurgia para não ocorrer retenção de líquidos -, outros com mais que um orifício. E há quem nunca o rasgue com qualquer tipo de penetração. Pelo que podemos verificar que o teste, em si, para além de implicar um grau de exposição e vulnerabilidade elevado para quem é examinado, é deveras inútil.



Sendo assim, porque é relevante? Pois tem uma herança de objetificação da mulher. É de notar que a natureza deste procedimento é centrada na fisionomia feminina biológica. Efetivamente, existem alguns relatos destes testes serem feitos a jovens rapazes – contudo, não diminuído este facto de forma alguma, destacamos que, para além destes assentam em conceções fisiológicas e médicas ainda mais afastadas das descritas anteriormente, o suposto propósito dos testes de virgindade em homens ter como objetivo o controlo de doenças sexualmente transmissíveis, algo que não se verifica no exemplo feminino biológico, como demonstraremos infra – existe uma interconexão entre o culto da mulher “casta” e “virgem”. Para os mais céticos dos traços que esta dita “tradição” deixa, um dos exemplos mais patentes da marca seria os vestidos de casamento e prática pós-vitoriana destes serem brancos, para simbolizar a sua “pureza”, o quão “intocada” a mesma se encontra. O contrapeso será uma imagem da mulher como inferior, ou até suja, caso tenha praticado qualquer ato sexual previamente – criando uma correlação entre o seu valor intrínseco como pessoa e a sua atividade sexual. Saliente-se, novamente, que a mesma apreciação não é feita para homens (aliás, existe sim uma hipervalorização da sua promiscuidade). O produto final resulta numa flutuação da “categoria” da mulher num eixo imóvel do estatuto do homem. Claro que o cerne da questão não incide na culpabilização do género, mas antes num destaque alheio de uma situação atual. Além disto, existe uma profunda incoerência com a própria desvalorização do sexo, visto que este pode ir à além do penetrativo, mas apenas este é examinado, ainda que toda a atividade sexual seja condenada. Temos, na verdade, uma construção social que abre portas para o controlo externo do corpo da própria mulher por outros.


De facto, todos saem prejudicados, pois o culto da virgindade acaba por ser oculto. Sexo continua a ser um tema tabu no século XXI e um tópico difícil de abordar por muitos pais, algo que se torna cíclico. Se não tornarmos “a conversa” numa prática banal, como poderemos esperar que os nossos filhos façam escolhas conscientes e saudáveis quanto à sua vida sexual? Como é que a própria abstinência social quanto ao assunto é um presumido apoio suficiente para jovens que procuram ter uma relação saudável com a sua sexualidade? Como podemos responsabilizá-los e estigmatizá-los por explorarem se não fazemos o nosso papel e rebentar a bolha de desconforto a que estamos presos e nos impede de transmitir conhecimento informado sobre sexo? Silêncio não é educação. Pressão social não é educação.



Felizmente, tem existido um progressivo reconhecimento destes testes de virgindade como violação de direitos humanos, tendo a própria Organização Mundial de Saúde descrito a prática como “a violation of a girl or woman’s human rights and is harmful to physical, psychological and social well-being, and advocates for this practice to be banned”. Gerou-se, de seguida, um impulso para a criação de legislação que proíbe estas práticas médicas – ou torná-las dependentes do consentimento do paciente, não dos pais - como propôs Michaelle C. Solanges, membro da Assembleia do Estado de Nova Iorque, no início deste ano. Outro exemplo foi avançado pelo Reino Unido, que proibiu os testes de virgindade em Novembro de 2021 e, após as críticas à falta de repercussões práticas na implementação da lei, alterou a sua Health and Care Bill para incluir a proibição de Himenoplastia - ou reconstrução de hímen, procedimento comum para “reparar a virgindade” da mulher - no País de Gales e em Inglaterra. Porém, não é suficiente: mais tem de existir diálogo entre progenitores/tutores e filhos, em conjunto com o apoio profissional disponível de médicos e pediatras, de forma a abolir as paredes erguem à volta do sexo e os corolários sucessivos de objetificação e culto à castidade – e censura na falta da mesma.


Fontes: