Pobreza Menstrual – A Antítese Antinatural

Vamos falar de períodos: um tema paradoxalmente discreto. Na medida em que é um fenómeno biológico que ocorre em cerca de 800 milhões de indivíduos no mundo diariamente, o estigma à volta do conceito está bem enraizado na nossa sociedade.


Processo como este realizado pelo corpo humano, mais natural não poderia ser. Discorrendo um pouco, consiste na “perda cíclica de sangue por via vaginal, geralmente com uma duração de 2 a 7 dias. Esta perda de sangue resulta da descamação do “forro” do útero (endométrico) em cada ciclo menstrual. A menstruação ocorre uma vez no mês, aproximadamente 28 dias de uma data para outra, mas pode chegar até 35 dias, sendo considerada normal”.


Saliente-se que não é por só alguns sentirem no seu íntimo a batalha entre a pressão social e a necessidade por um desconforto físico de pedir um penso em público que este problema não é de todos.



Os esteios destes comportamentos são, igualmente, os mais naturais: lacunas nos moldes educativos, falta de informação e convenção social. Certos estudos demonstram que 44% das mulheres não sabia o que era o período quando lhes apareceu pela primeira vez; o fenómeno leva a que cerca de 60% das mesmas sentisse medo, receio e até vergonha de partilhar com alguém. Para além do desconforto emocional, o físico encontra-se maioritariamente presente, chegando a afetar o desempenho académico e atividades variadas devido a dores, fugas ou olor. O problema densifica, relacionando-se com a mácula presente em muitas culturas e países em que a menstruação ainda é considerada uma coisa suja e que deve ser encoberta. Isha Bhatia traz-nos um testemunho real, num artigo de opinião para o DW: “Imagine waking up in a bed soaked in blood. Imagine rushing to the school lavatory with a stained skirt. Imagine a tattered washcloth between your legs. Picturing this might fill you with disgust, but it affects hundreds and thousands of girls in India. As an adolescent, this was part of my life. I remember my grandmother handing me the filthiest piece of cloth that I had ever seen. I remember objecting to it because by then I had read a bit about menstrual hygiene in my school books. But her logic was quite simple: "Periods are dirty and so all you need is a dirty piece of cloth. After all, it is just going to end up in trash. So, why does it need to be clean?" There are various studies regarding menstrual hygiene in India. One of them claims that over 70% of Indian women still believe periods to be "dirty." My grandmother was no exception. She had used dirty cloths all her life and it is not surprising that this had likely led to cervical cancer”. Só neste país do sudoeste asiático, estima-se que 70% das doenças do sistema reprodutor feminino estão relacionadas com más práticas de higiene. Esta questão comporta a agravante particular na dificuldade na obtenção produtos de higiene menstrual.


Outro estudo afirma que apenas 18% das mulheres indianas têm acesso a estes artigos; de acordo com um inquérito realizado pela Plan International, de 2017, 1 em cada 10 raparigas no Reino Unido não tem dinheiro para comprar pensos ou tampões, tendo de recorrer a soluções improvisadas – estudo este que confirma os números de 2014 de um relatório da UNESCO sobre o mesmo tema, mas à escala mundial; estima-se que cerca de 16.9 milhões de indivíduos com o período vivem em condições de pobreza menstrual nos Estados Unidos; a lista prossegue. P