O terror em Cabo Delgado

A presença terrorista em Cabo Delgado não é de agora. A onda de violência perpetrada por grupos terroristas nesta região perdura desde 2017. O ACLED (Armed Conflict Location & Event Data) estima que os ataques já resultaram em mais de 2.500 mortes e as Nações Unidas falam em cerca de 714.000 deslocados.


Mais recentemente, o grupo jihadista, autodenominado Al-Shabaab com ligações ao Estado Islâmico, atacou e tomou posse da vila de Palma. Embora não sejam novidade os crimes praticados por estas milícias, desta vez o local escolhido é muito próximo de um projecto de gás da petrolífera Total. Assim, a companhia teve de abandonar por tempo indeterminado o recinto, criando um grande vazio naquele que ia ser um lançamento da economia moçambicana na próxima década.



As Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas já recuperaram o controlo sobre a vila de Palma, mas pela constante incerteza gerada pelos grupos terroristas que dizimam a zona, o projecto da petrolífera não foi reatado.


O Conselho Empresarial local também tem alertado para a destruição do tecido económico de Cabo Delgado. Não só a rede de comércio foi afectada, mas um abandono massificado das actividades agrícolas e pesqueiras tem contribuído para a situação de precariedade económica.


A Amnistia Internacional tem vindo a acusar, não só os grupos armados que têm protagonizado ataques em Cabo Delgado, mas também as forças governamentais moçambicanas de violações dos direitos humanos na província. Num relatório sobre o conflito, a organização afirma que as mortes ilegais de centenas de civis foram cometidas tanto pelos grupos terroristas como pelas forças de segurança moçambicanas e por uma empresa militar privada contratada pelo governo.



Percebe-se que o problema não se limita à grave crise humanitária. Claro que daqui já se retiram grandes consequências para o regular funcionamento da vida civil naquela região de Moçambique. Mas a frustração dos planos económicos também “ajuda” para a constante situação de carência vivida por aquelas populações.


É preciso que as potências mundiais se unam no esforço de manter a paz nos países mais carenciados, não acautelando apenas os possíveis interesses económicos que deles podem retirar. Sem uma resposta conjunta dessas mesmas potências, os dias de normalidade e de recuperação continuarão a ser uma miragem para tantos povos que anseiam pelo fim dos seus conflitos sistemáticos.