O que está a acontecer no Cazaquistão?


Protestos espontâneos no Cazaquistão, causados ​​por uma série de problemas sociais e políticos domésticos, espalharam-se por todo o país em poucos dias, afetando a situação em toda a região. Em todas as grandes cidades, verificamos situações de confrontos com a polícia, incêndios e administrações locais foram apreendidas. Estado de emergência, cortes de internet e de telefone. É assim que se parecem hoje os protestos em massa no Cazaquistão, que começaram com o aumento dos preços dos combustíveis, mas já levaram à renúncia do governo e à remoção de seu ex-presidente, Nursultan Nazarbayev, do Conselho de Segurança do país.

Porque é que os protestos se espalharam tão rapidamente pelo Cazaquistão e que consequências podem ter para outros países pós-soviéticos? E de que forma o fator russo pode afetar a situação? A Rádio Svoboda reuniu opiniões de especialistas.

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As razões para os protestos cazaques

Os protestos no Cazaquistão começaram na cidade ocidental de Zhanaozen a seguir ao Ano Novo. Inicialmente, os manifestantes exigiram uma redução no preço do gás liquefeito, que é usado pela maioria dos cazaques e que duplicou o preço desde do dia 1 de janeiro. No terceiro dia de protestos, as autoridades concordaram em baixar os preços, porém, os manifestantes fizeram exigências políticas. Além da renúncia do governo, eles exigiram a eliminação da corrupção e da pobreza e a retirada do poder do ex-presidente do Cazaquistão Nursultan Nazarbayev, de 81 anos, que continua a influenciar decisões importantes. Este não é o primeiro protesto no país nos últimos anos e tem motivos puramente internos. Uma série de protestos no país que ocorreram desde 2000 e foram desencadeados pela revolta contra a fraude eleitoral, a reforma agrária, entre outros problemas.

De acordo com o Ministério do Interior, pelo menos 12 elementos das forças de segurança foram mortos e mais de 300 ficaram feridos. Entre os manifestantes há mais de mil feridos, muitos deles em estado grave. Há protestos em várias cidades, devido ao aumento do preço do gás, que se transformaram em distúrbios, resultaram na queda do Governo e levaram o chefe de Estado a decretar o estado de emergência em todo o território do país. Diante do caos, a Rússia e seus aliados na Organização do Tratado de Segurança Coletiva anunciaram o envio de uma "força de paz"” como reportou a RTP, dia 6 de janeiro deste ano.

A própria Amnistia Internacional reitera que os protestos são “uma consequência direta da repressão generalizada das autoridades aos direitos humanos básicos (...) [durante] anos, o governo perseguiu implacavelmente a dissidência pacífica, deixando o povo do Cazaquistão em estado de agitação e desespero”.


Importância dos protestos para a região e para o mundo:


Segundo a revista The New York Times, a importância das manifestações dá-se pelo facto do país ter sido visto até agora como um pilar da estabilidade política e económica numa região instável, mesmo que essa estabilidade tenha como custo um governo repressivo. Além disso, o país está alinhado com a Rússia, sendo que o presidente Vladimir Putin vê o país como esfera de grande influência em termos políticos e económicos, dado que essas turbulências mostraram uma grande oportunidade para reafirmar o antigo domínio sovietico para o Kremlin. Um dos maiores medos para o poder e influência autoritária do Kremlin é precisamente o facto dos países da antiga URSS também estarem a acompanhar as manifestações, o que pode agilizar maior oposição nas outras regiões.


Apesar de mostrarem ligações estreitas com a Rússia, também mantiveram laços com os Estados Unidos, com o investimento em petróleo com a Exxon Mobil e a Chevron.


O Diário de Notícias relata: “A presença russa no país está a inquietar a comunidade internacional, com os EUA a avisarem já que o mundo vai estar "muito atento" à atuação das tropas lideradas por Moscovo e António Guterres, secretário-geral da NATO, a pedir contenção às tropas deslocadas no país”.



Algumas questões a retirar


É inequívoca a importância do país como pilar de estabilidade pós-soviético, não só numa perspectiva de fornecimento energético para a região e o mundo, mas também como exemplo de prosperidade de um Estado com um passado tão traumático; ou seja: como reiterámos supra, o Cazaquistão encontra-se numa profunda crise económica e com uma crescente tendência para violar sistematicamente direitos humanos e fundamentais, num constante ataque à democracia. Arriscamo-nos a dizer que transparecem as feridas da antiga URSS? Numa situação em que as aparências tendem a iludir, com escalar de uma situação de conflito interno, com o envolvimento de grandes potências estrangeiras, nomeadamente a Rússia e os EUA (uma tendência histórica, podemos acrescentar), será este o primeiro dominó de uma cadeia de conflitos regionais - e ainda, como reagirá o poder militar estratégico de Putin ao desdobrar-se em constantes conflitos, como a atual ameaça à Ucrânia?


Fontes: