O prelúdio de uma nova guerra fria

Nos últimos meses, diversos países têm vindo a denunciar a súbita concentração em larga escala de tropas russas perto da fronteira ucraniana, muitos considerando tratar-se de um indício de uma futura invasão. Sucede que Moscovo tem estado a aumentar a sua atividade militar, particularmente ao longo da fronteira com países da NATO (North Atlantic Treaty Organization), desestabilizando propositadamente a segurança na área leste da Europa, sem outra qualquer estratégia.

Essa concentração é uma continuação do que começou na primavera de 2021. Na verdade, a Rússia nunca realizou uma retirada – quase todos os equipamentos da aglomeração bélica da primavera permaneceram perto da fronteira durante o verão e ainda lá se encontram -, retomando a sua construção no início de novembro, trazendo equipamentos adicionais que não tinham sido antes transferidos.

Em virtude destas ações recentes, a preocupação ocidental atingiu um patamar mais alto que nunca com o receio da ocupação. Não só o Kremlin nunca retirou totalmente suas tropas como, para além disso, as autoridades russas continuaram a expressar preocupações não apenas com a Ucrânia, mas também com a NATO e sua suposta tentativa de expansão para o leste.


Por um lado, a parte russa rejeita as alegações e acusa as autoridades ucranianas de planearem uma ofensiva para voltar a ganhar controlo da região leste da Ucrânia, liderada por rebeldes. Ademais, elaborou um documento de exigências à NATO, demandando que a Ucrânia e outras antigas nações soviéticas não tenham autorização para entrar no grupo transatlântico. Putin alega que a sua segurança está ameaçada pelos laços crescentes da Ucrânia com a aliança ocidental e pela possibilidade de serem instalados mísseis da NATO contra a Rússia em território ucraniano, seu vizinho. Esta pressão parece ter como único intuito exercer maior coação sobre a Ucrânia, para que o país não adira à União Europeia, nem à Aliança Atlântica.

Por outro lado, a Ucrânia negou qualquer intenção de o fazer, invocando não ter quaisquer pretensões de expandir o seu território para leste. Tudo leva a crer que a Ucrânia se encontra num impasse, uma vez que a Rússia tudo fará para que esta não se torne uma democracia totalmente independente e funcional, com integração política, económica, cultural e social com o Ocidente.


As raízes do conflito entre a Rússia e a Ucrânia são profundas. O impulso da primeira para dominar a segunda resume-se à relutância implícita de Moscovo em aceitar a independência da Ucrânia. Parece que a Rússia continua incapaz de se adaptar à nova realidade ao não aceitar que seus antigos domínios são agora nações independentes, como outras antigas potências imperiais já o fizeram. As tensões entre a Rússia e a Ucrânia têm, por certo, uma história que remonta à Idade Média. Os dois países compartilham raízes comuns, mas, na verdade, os caminhos das duas nações foram divididos por séculos, dando origem a duas línguas e culturas - intimamente relacionadas, mas, no entanto, bastante distintas. Hoje, pelo menos 2 milhões de ucranianos vivem na Rússia, e existem centenas de laços familiares entre as duas nações. Até porque muitos russos realmente veem Kiev como o local de nascimento da nação russa.



Porém, a Rússia parece totalmente disposta a enviar jovens soldados para morrer por causa dos sonhos de um império desaparecido, na tentativa de afirmar seu antigo status. Efetivamente, no geral, a natureza da ameaça russa mudou- as ações recentes do Kremlin não têm qualquer motivação defensiva, mas antes demonstram uma postura ofensiva e um desejo de prossecução das suas próprias prioridades. Em vez de se concentrar em estabelecer um bom relacionamento com as potências ocidentais, a Rússia demonstrou-se confortável ao ponto de declarar abertamente as suas pretensões intimadoras. A Ucrânia é só o primeiro alvo na trajetória final.

É certo que a forma como as nações respondem a essas premissas e lidam com as ameaças militares abertas que as acompanham, ditará a segurança da Europa, visto que a Organização do Tratado do Atlântico Norte se mantém claramente um pilar indispensável da segurança europeia. Como seria de esperar, os EUA e outros aliados da NATO rejeitaram as exigências da Rússia relativamente à exclusão da admissão do ex-Estado soviético, relembrando o país agressor que não tem nada a dizer sobre a expansão da NATO.

À medida que continua a aumentar o contingente militar russo junto à fronteira com a Ucrânia, os EUA e a Europa alertaram a nação tumultuadora para as consequências de novas hostilidades, demonstrando o seu sólido apoio a Kiev e à NATO, o que é visto pela Rússia como uma política ameaçadora. Até agora, as sanções em mesa são de natureza económicas e financeiras, com uma intervenção militar declarada a ser posta de parte.

Infelizmente, a preocupação da NATO e da UE com a Rússia extravasa em muito a tensão na Ucrânia. Todas as sociedades democráticas devem enfrentar coordenadamente, e em conjunto, as ameaças de nações agressoras. Estabelecer os limites do poder da Rússia ajudará a garantir um futuro mais seguro, em primeiro plano para a Europa, e com plano de fundo todos os países opositores das ideologias expansionistas russas. A reação ocidental a estas demandas desempenhará certamente um papel crucial no desenrolar da relação entre estes dois países do leste.Na realidade, a crise que se abate sobre a Ucrânia não mostra sinais positivos à medida que as negociações diplomáticas começam.


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