O papel do 25 de Abril no mundo e o papel do mundo no 25 de Abril

O 25 de abril é um incontornável marco da História de Portugal, refletindo uma oportunidade de rutura com o passado. Todos os portugueses conhecem esta célebre data como o momento de rejuvenescimento e de aperfeiçoamento da democracia. O dia em que o teu país voltou a ter liberdade despertou com uma revolução lusa, que contou com a ajuda do próprio povo, de mãos dadas com o Movimento das Forças Armadas, cravos vermelhos nas lapelas e nos canos das espingardas. E o que era um golpe de Estado transformou-se numa verdadeira revolução que derrubou uma ditadura de 48 anos.


Os anos que antecedem a Revolução dos Cravos são caraterizados por instabilidade, diversos foram os prismas que despoletaram a mais famosa Revolução portuguesa. A partir dos anos 70 do século XX, a Guerra Colonial trouxe uma série de preocupações para o interior de Portugal. Houve surtos de emigração no início da década já mencionada e a quantidade de homens que foram forçados a ir combater na guerra do ultramar era descomunal. Devido ao perfil imperialista do governo, uma época de enorme inflação eclodiu, estes e outros fatores pioraram as dívidas de forma progressiva, a juntar ainda o facto de o nível de vida estar cada vez mais elevado, já que os preços não paravam de aumentar e, por outro lado, não havia qualquer indício de aumentos salariais à vista. O cenário era de pobreza, fome e atraso a todos os níveis relativamente ao resto da Europa, principalmente nas classes mais desfavorecidas. As despesas advindas da Guerra Colonial impediram os investimentos públicos na metrópole nos diferentes setores.


Para o Movimento dos Capitães era evidente que a solução para a guerra colonial só podia ser política, passando a defender-se o fim da guerra colonial e uma solução negociada para a independência dos povos africanos, o desmantelamento do regime e a implantação de uma democracia de tipo ocidental, o prestígio das forças armadas e o fim do isolamento de Portugal. Muitos países europeus tinham tido colónias em África, mas em 1973 ou 1974 essas colónias já se tinham tornado países independentes- só Portugal é que não conseguia abdicar das províncias ultramarinas. Além disso, Portugal dirigia para as despesas da guerra cerca de metade do dinheiro que gastava.



Proclamava-se a instituição das liberdades, a libertação de presos políticos, o regresso de exilados, a extinção dos organismos do Estado Novo, a realização de eleições livres, por sufrágio direto, para uma Assembleia Nacional Constituinte e o fim da guerra colonial. De facto, esta data tem uma importância que extravasa o âmbito nacional, a implantação da democracia reconheceria não só os direitos dos portugueses como dos povos africanos, concedendo-lhes, finalmente, a devida independência!


Durante a ditadura fascista, predominava a ausência de direitos que, no caso das mulheres era total. A revolução de abril de 1974 representou para a população portuguesa, e para as mulheres em Portugal, uma gigantesca transformação social, económica, política e cultural que imprimiu um novo modelo socioeconómico. A consagração de direitos sociais, económicos e políticos imprimiu uma profunda alteração sistémica na sociedade portuguesa: abriram-se as portas para o início do longo percurso em direção à igualdade de género.


Vitoriosos, os revolucionários de abril conseguiram a implantação do regime democrático e a instauração da nova Constituição Portuguesa. O 25 de Abril foi um movimento libertador pela democracia, paz, descolonização e desenvolvimento socioeconómico do nosso país e existem diversas evidências de tais factos.


No dia 2 de abril de 1976, a Assembleia Constituinte aprova a Constituição de 1976 que consagrou a igualdade entre mulheres e homens, em todos os domínios da vida, e cuja entrada em vigor determinou a revogação de todo o direito discriminatório até então vigente.



Traço fundamental é o que está, hoje, inscrito logo no artigo 1.º da Constituição da República Portuguesa: «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária».


O derrube da Ditadura por militares foi bem acolhido pelos países com quem Portugal mantinha relações políticas e pela generalidade daqueles com quem as não havia. As transformações sociais possibilitadas pelo 25 de Abril foram encaradas com muitas expetativas pela comunidade internacional. O 25 de abril abriu Portugal à comunidade internacional. Portugal era um país isolado internacionalmente, mantendo relações diplomáticas com um número restrito de países.


Portugal não tinha relações com os países do Bloco Leste, nem com muitos dos países do Terceiro Mundo. A posição da Europa Ocidental para com a revolução portuguesa tinha em comum com a dos Estados Unidos a preocupação com a nova ordem que estava a ser estabelecida na Europa do sul, onde a Grécia acabara de sair de uma ditadura, e no perigo de perturbação que Portugal poderia causar na transição da Espanha para um desejável regime democrático.


Este ano celebrámos com especial relevância esta data, uma vez que desde o dia 23 de março de 2022 já vivemos mais tempo em democracia do que em ditadura durante o Estado Novo.



Bibliografia:

  • Barreto, António. “Revolução de 25 de Abril de 1974”.

  • Barreto, António e Mónica, Maria Filomena (dirs.), Dicionário de História de Portugal. Porto: Livraria Figueirinhas, 2000. Volume 9.

  • Baptista, António Alçada. Conversas com Marcelo Caetano. Lisboa: Editorial Moraes, 1977.

  • Brito, José Maria Brandão. O País em Revolução. Lisboa: Editorial Notícias, 2001.

  • Mariana Calisto, os Reflexos do 25 de Abril no Mundo do Trabalho.