O culminar de uma crise de desabastecimento alimentar

O distúrbio alimentar é cada vez mais tangível. Atualmente, atravessamos uma confluência de fatores que não funcionam em conjunto. De facto, o escoamento de fertilizantes e de produção de trigo tem levado a um aumento incansável da procura deste bem. Num período de recessão pandémica em que as reservas globais de grão alimentar já são insuficientes, os padrões climáticos estão a mudar e os custos energéticos a subir. Os fornecedores, por outro lado, têm sido afetados por eventos climáticos extremos um após outro. Estamos a falar de tempestades de inverno, de furacões, incêndios e secas- sendo este último elemento o mais predominante em território português. Os agricultores estão a sofrer com a perspectiva das alterações climáticas e não só.

Por outro lado, a guerra na Ucrânia agravou a crise alimentar mundial. Para além do aumento brutal no preço dos cereais, dos combustíveis, da carne e de outros produtos, devido à escalada de conflito, grande parte do armazenamento de cereais encontra-se agora bloqueado na Rússia e na Ucrânia, que, no total, costumavam produzir cerca de 30% do trigo e 17% do milho consumidos pelo mundo. A maior parte destas exportações está agora inacessível aos agricultores por todo o mundo devido às sanções ocidentais e às recentes restrições na exportação de fertilizantes da Rússia.


A Ucrânia era um dos maiores exportadores mundiais de milho, de cevada e de óleo de girassol. Pelo que, com a invasão russa, a exportação caiu para cerca de 1 milhão de toneladas, não tendo os produtores como escoar os seus bens, nem forma de os manter seguros. Contudo, uma pequena parcela ainda consegue ser transportada através da Roménia.



Dada a localização estratégica da Ucrânia, as consequências são evidentemente globais. A falta de alimentos e insumos agrícolas é de caráter urgente e trata-se de um problema a nível mundial. Com as rotas comerciais terrestres condicionadas pelas frentes ativas do conflito e devido ao bloqueio de portos e ferrovias, estima-se que milhões de toneladas de cereais estão atualmente retidos devido à presença da frota russa no Mar Negro, correndo o risco de inflamar a África e o Médio Oriente.


A Índia, a maior produtora de trigo, a seguir à China, cancelou a maior parte da exportação priorizando o abastecimento interno- como muitos outros produtores. Outros grandes exportadores do alimento, que poderiam servir de alternativa - como EUA, Austrália e Argentina - já alcançaram a sua produção máxima e precisam dar conta também da elevada demanda nacional.


Infelizmente, muitos países na África, no Oriente Médio e na Ásia são dependentes do trigo exportado pela Ucrânia através Mar Negro; sendo o principal importador do cereal no mundo o Egito, seguido pela Tanzânia e por Moçambique, que agora ficam quase privados desta matéria-prima.


Também os países importadores também ficam à mercê da inflação dos preços de energia, fertilizantes e alimentos básicos- tudo isso junto chega a 50% das despesas correntes nos países menos desenvolvidos.



Presidindo a União Europeia, a França criou uma iniciativa que visa a fortalecer as produções nacionais e garantir transparência nas reservas alimentares, a designada Missão de Resiliência Alimentar e Agrícola (Farm- sigla em inglês).


Porém, como adverte o presidente da Polónia, isto pode conduzir a devastadores "efeitos colaterais" acrescendo o risco de uma nova crise migratória nos países do sul da Europa, onde se inclui Portugal. De facto, o agravamento da crise alimentar em África poderá vir a ser sentido dentro da União Europeia diretamente e indiretamente. Quase metade dos países africanos depende do trigo importado da Rússia e da Ucrânia, com 14 países africanos a receberem mais de metade do seu trigo vindo das duas nações em guerra. O aumento dos preços dos alimentos ameaça agora empurrar milhões de famílias africanas para a pobreza e desnutrição.


Estamos, novamente, perante frutos de uma guerra na Europa que nos veio demonstrar o quanto as relações externas com regimes autoritários podem criar vulnerabilidades e como depender demasiado da importação de commodities-chave, como energia ou cereais acarreta riscos ainda não testados. Neste cesto também podem ser adicionados os riscos relacionados à exportação de tecnologias avançadas, de inteligência artificial e mesmo de armamento bélico, cuja procura aumentou exponencialmente nos últimos meses.


Não sei ao certo se continua a ser possível evitar uma crise alimentar”, diz o presidente da Organização Mundial de Agricultores. “A questão é saber o quão abrangente e profunda poderá ser. Mais importante ainda, os agricultores precisam de paz. E a paz precisa de agricultores.”


Na verdade, a invasão da Ucrânia foi apenas um golpe numa indústria que já lidava com vários problemas há mais de um ano, o conflito armado na Europa não é o único desafio deste mercado. A guerra na Ucrânia e a proibição de exportação de cereais decretada pela Índia estão a agravar uma situação já antes complexa devido à pandemia de Covid-19 e às alterações climáticas.


Fontes: