O caminho para a COP26

Neste momento pós-pandémico, é mais importante do que nunca implementarmos uma recuperação verde e reconstruirmos uma vida mais ecológica para combater as mudanças climáticas. Atualmente, chegámos a um ponto em que o aquecimento global deixou de ser um tema instrumental na agenda política para se tornar uma prioridade a nível global, na medida em que as variações do meio ambiente nos afetam a todos, direta ou indiretamente. Em todo o mundo, as tempestades, inundações e os incêndios florestais estão se intensificando cada vez mais. Infelizmente, a poluição do ar afeta a saúde de dezenas de milhões de pessoas e o clima imprevisível causa danos incalculáveis às habitações e aos meios de subsistência. Só este ano, as inundações mataram 200 pessoas na Alemanha, as ondas de calor atingiram o Canadá e até o Ártico Siberiano foi consumido pelas chamas.


Durante as últimas décadas, em virtude dos impactos devastadores das mudanças climáticas, as Nações Unidas têm tentado reunir cimeiras globais para fazer frente a este problema, às quais se designaram de COP (‘Conference Of the Parties’). Este ano realizou-se, em Glasgow, de 31 de outubro a 12 de novembro de 2021, a COP26 que corresponde à vigésima sexta Conferência das Partes sobre Mudança Climática das Nações Unidas, tratando-se de um momento crucial para desenvolver esforços para enfrentar a crise climática. Este evento internacional reuniu líderes mundiais, governos nacionais, organizações não governamentais e ativistas para discutir as mudanças climáticas, tomar decisões e assumir compromissos sobre a melhor forma de enfrentá-las. As metas traçadas na conferência de Glasgow são essencialmente quatro: em primeiro lugar, assegurar a neutralidade carbónica global até meados do século XXI e manter o aumento da temperatura média abaixo dos 1,5º graus Celsius; assegurar a adaptação para proteger comunidades e habitats naturais; mobilizar recurso financeiros; e, finalmente, cooperação.



A COP26 é vista por muitos como a última oportunidade de cumprir as metas do Acordo de Paris. Esta foi a primeira avaliação de cinco anos desde que as metas foram definidas e demandou aos líderes que abordassem o que foi ou não alcançado desde 2015. Aqui, os países apresentaram os seus planos atualizados de redução de emissões, reconhecendo que os compromissos de Paris não chegaram para limitar o aquecimento global e de que a janela de oportunidade para se evitar uma catástrofe climatérica se está a fechar - cada incremento de graus traduz maiores riscos. Assim, não se trata só de mais uma cimeira, já que grande parte dos peritos a consideram de extrema importância devido à situação de emergência em que o nosso planeta se encontra. Na verdade, Paris estabeleceu o objetivo, mas cabe a Glasgow torná-lo uma realidade palpável.


Efetivamente, as conferências anuais continuam a ser o único fórum para lidar com o problema coletivamente. Porém, eles operam por consenso entre aproximadamente 200 países, todos com perspectivas muito diferentes.


Deste modo, à primeira vista, as coisas não parecem de todo promissoras, visto que após três décadas de «conversa», o planeta está agora pelo menos 1,1º graus Celsius mais quente do que o nível pré-industrial – valor esse que continua em crescimento. Mesmo que todos cumpram as suas promessas atuais de reduzir as emissões, ainda estaremos no caminho para um aumento perigoso de temperatura até o final do século. Para esta conferência, no entanto, as expectativas de progresso são maiores do que o normal. Em parte, isso ocorre porque os riscos estão a chegar ao fim.



A situação atual era impensável até alguns anos atrás: uma enxurrada sem precedentes de países e empresas, alguns mais plausivelmente do que outros, prometendo chegar a zero emissões de gases de efeito estufa até meados do século. Hoje, especialmente, os cientistas têm evidências para dizer que é inequívoco que a atividade humana é a origem das mudanças climáticas e isso torna os extremos violentos mais prováveis. Infelizmente, estas alterações estão mais claras do que nunca, o que implica uma necessidade de reduzir, pelo menos, para metade as emissões globais de carbono até 2030 - prazo este que já é relativamente curto.


É de apontar, na verdade, que um dos discursos mais impressionantes na COP26 foi o do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Tuvalu que, com água até o joelho, mostrou ao mundo como a sua nação insular do Pacífico já começa a desaparecer, devido à subida do nível das águas- consequência do degelo.


A mensagem subjacente é simples: as mudanças climáticas provavelmente exacerbarão as desigualdades existentes. As pessoas com mais recursos terão amortecedores maiores. Já para não dizer que o clima mais quente favorece a disseminação de doenças infecciosas.


Em suma, a mudança climática é amplamente reconhecida como um “multiplicador de ameaças” que aumenta as probabilidades de conflitos dentro e fora dos Estados. Com efeito, não há nenhum caminho viável para as emissões líquidas zero que não envolva a proteção e restauração da natureza a uma escala sem precedentes. Há um consenso claro de que todas as nações precisam fazer muito mais. A importância da transição ecológica demonstra-se, como nunca, indispensável e cabe a todos ter uma parte neste processo.