Estudar Direito e Entrar no Mercado de Trabalho na Altura da Pandemia

Se olhássemos para um auditório em qualquer Faculdade de Direito do país, grande parte dos alunos estaria com computador e telemóvel em cima da mesa.

Quando é que o telemóvel e o computador passaram a ser o meio para conseguir continuar a estudar Direito? Quais foram as maiores dificuldades? E quando chegar a altura de entrar no mercado de trabalho, o que é que preocupa os futuros juristas portugueses?



Falámos com uma Caloira de Direito, que nos deu o seu ponto de vista.


P: Como é entrar em Direito em plena pandemia?

R: A aprendizagem pelo Zoom é mais difícil de acompanhar e perde-se muita matéria. Apesar das ferramentas que a Universidade nos dá, a verdade é que as aulas presenciais são mais produtivas e conseguimos aprender muito mais.

Quanto à integração em si e às amizades, as redes sociais ajudam muito e, em relação às pessoas da mesma turma, é fácil, enquanto que com outras turmas, “fica a desejar”.

Perdemos a oportunidade de ir às praxes, de ir às festas e convívios que fazem muita falta, ficando com a sensação de que a nossa integração não foi completa, principalmente porque aquele momento de conhecer as pessoas, não aconteceu. A esse nível fez-se sentir a pandemia.

P: Quando chegar a altura de entrar no mercado de trabalho, achas que os efeitos (negativos) da pandemia ainda se vão fazer sentir?

R: Não sei bem como vai ser, mas acho que quando o “meu ano” entrar no mercado de trabalho, vão ser pessoas marcadas pela excelência e ritmo de trabalho que Direito nos exige e, por isso, vai ser bastante competitivo porque a maior parte de nós já entrou em Direito com médias altíssimas.



Dois finalistas deram-nos as suas opiniões.


P: Sentes que a pandemia limita as tuas oportunidades no mercado de trabalho?

R:

A nossa voluntária finalista: Sim, principalmente porque as oportunidades que nos costumam introduzir no mercado de trabalho antes de o efetivamente integrarmos, os estágios curriculares ou de verão, foram, na sua grande maioria, cancelados desde março do ano passado e também vimos uma redução significativa no número de vagas que nos foram apresentadas este ano. Portanto, é difícil adquirir experiência nesta fase e mesmo perceber em que área gostamos de trabalhar. Em termos de recrutamento também têm chamado menos pessoas, pelo mesmo motivo (redução das vagas).


O nosso voluntário finalista: A generalidade das entidades fez um grande esforço para adaptar os processos de recrutamento às necessidades atuais e, no meu entender, fê-lo com grande sucesso, usando as plataformas digitais ao dispor, conseguindo contornar o problema do contacto com potenciais candidatos.

Mas, por muitos que sejam os esforços realizados por todos, as oportunidades de acesso ao mercado de trabalho não são as mesmas que teríamos em condições normais.

P: Como imaginas a tua integração numa sociedade/empresa/consultora ou outra opção que escolhas nas circunstâncias atuais?

R:

A nossa voluntária finalista: Penso que será, certamente, diferente do que estaria à espera, pois é evidentemente diferente a integração de uma equipa por via eletrónica, comparado com o contacto pessoal e direto com as pessoas com quem trabalharia no dia-a-dia. Especialmente porque, como recém-licenciada, acho que uma das melhores coisas seria aprender diariamente com profissionais competentes e com mais anos de experiência, podendo realmente integrar-me e desenvolver-me dentro da entidade. No entanto, pelo que tenho observado, há grande esforço e tentativa de fomentar uma relação com quem entra no mercado de trabalho e fala-se já em visões de retomar à normalidade no futuro, portanto, tenho esperanças nesse sentido.


O nosso voluntário finalista: A integração de novos membros em empresas/sociedades é um desafio dada a atual conjuntura. Sempre que possível, é obrigatório o recurso ao teletrabalho. Isto significa que qualquer contacto presencial é muitas vezes posto em causa, e num momento inicial de integração este contacto é essencial para uma rápida aprendizagem e familiarização.

Ainda assim, esta é a realidade em que nos encontramos. Como tal, é necessário que haja um esforço de todos os envolvidos para permitir que este contacto seja o mais eficiente possível, pese embora o cenário provável de ser feito com recurso à videoconferência e outros meios digitais.




Quisemos ainda saber a perspetiva de uma aluna de Mestrado.


P: Como é que perante esta pandemia olhas para o teu início de carreira profissional?

R: O início de uma carreira profissional em plena pandemia é um misto de emoções porque, por um lado, finalmente chegou a altura de poder concretizar os últimos anos e começar a fazer parte da prática do Direito. Mas, ao mesmo tempo, é quase assustadora a ideia de integrar um escritório em teletrabalho, porque obviamente o contacto faz muita falta na aprendizagem e quando penso nisso, rapidamente fico com a ideia de ser mais complicado mostrar aquilo que sabemos ou mesmo pedir ajuda numa tarefa mais complexa.


P: Qual era a tua expectativa em janeiro do ano passado vs janeiro deste ano?

R: Em janeiro de 2020, queria muito que chegasse o dia em que finalmente me licenciava, o dia em que entrava no Mestrado, o dia em que queimasse as fitas e recebesse o Diploma. Esperava que em janeiro de 2021 estivesse em entrevistas e dinâmicas de grupo para começar a trabalhar. A verdade é que não queimámos as nossas fitas, nem tivemos cerimónia de entrega de diplomas. Os recrutamentos e dinâmicas de grupo passaram a ser online, e com grande esforço por parte das empresas/sociedades que conheço, para que possamos sentir que ainda existe alguma normalidade e acreditarmos que há uma nova maneira de fazer parte.

Adaptei-me, mas as coisas não deixaram de correr de uma forma diferente (para pior) daquela que era a que todos nós idealizamos durante os últimos 4 anos.



É inquestionável o poder de adaptação que os jovens têm tido neste último ano. No entanto, este poder de adaptação continua de “mãos dadas” com inúmeras preocupações. Não obstante, a maior parte dos estudantes de Direito, revelam-se confiantes de que a normalidade voltará em breve e é isso que a PRO BONO deseja.



Aproveitamos para deixar um agradecimento especial aos voluntários que se disponibilizaram para transmitir os seus pontos de vista e desejar-lhes a maior sorte!


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