Entrevista de Oprah Winfrey feita a Meghan Markle e Harry: Vamos acabar com as desculpas

Na madrugada do dia 8 de março, a CBS emitiu uma entrevista feita por Oprah Winfrey aos Duques de Sussex, Harry e Meghan. No passado, outras entrevistas do foro pessoal ter-se-iam feito a membros da família real, como por exemplo, a Princesa Diana, após o divórcio com o Príncipe Charles.

A apresentadora e jornalista, conduz a entrevista de forma brilhante, sem receio de ferir as suscetibilidades da família real britânica.


Importa referir que, em janeiro de 2020, os Duques anunciaram que tinham a intenção de se distanciar das funções inerentes à condição de membros seniores, e em fevereiro de 2021 informaram que não iriam retornar como membros ativos da coroa.

Conseguimos retirar desta entrevista três problemas essenciais, que têm sido ignorados por uma grande maioria do povo britânico desde 2017.

O preconceito relativo à Duquesa, foi desde muito cedo explorado pelos media britânicos, o facto de ser americana, divorciada, atriz e afro-descendente tornou o conteúdo que se criava ao redor da mesma, apelativo aos leitores habituados a um padrão completamente distinto.

No ano anterior e seguinte ao matrimónio, o casal foi vítima de um assédio indescritível por parte dos “tabloids” que tanto a população como a família real, decidiram assistir sem quebrar o silêncio ou protestar.

Existe uma relação simbiótica entre a instituição e os media, a família real criou uma de dependência com os mesmos para receberem validação e cobertura positiva, sobre o que resta da sua preponderante imagem no contexto social e democrático em que vivemos.

Os próprios leitores, obrigados a assistir aos inúmeros ataques à pessoa da Duquesa, em especial a audiência americana, debruçam-se sobre a questão dos “limites à liberdade de expressão” e até que ponto a situação poderia ser considerada admissível.

A duquesa, durante a entrevista, faz referência aos problemas de saúde mental que advieram desta situação, conta que pediu ajuda aos membros da instituição e que lhe foi repetidamente negada.

Episódios depressivos e suicidas foram ignorados e “varridos para debaixo do tapete” pela instituição que gere os procedimentos da Coroa Britânica.

Permite-se que um ser humano permaneça num estado de desespero e de angústia durante meses, impossibilitado de procurar ajuda médica necessária, em prol do que poderia ou não transparecer para as audiências?

Na prepotência de tentar transmitir controle e perfeição deixou-se para trás a dignidade humana que deveria ter sido conferida, sobrepôs-se a vergonha de um vislumbre de instabilidade, ao bem estar de uma mulher que tinha acabado de ser mãe.

Tocando no tópico da maternidade, é dito pelos Duques, durante a entrevista, que a família real introduziu várias conversas a respeito de qual poderia ser a cor de pele do seu primeiro filho. Preocupados que um descendente da Coroa fosse negro como a mãe.

O racismo evidente vindo dos representantes da Commonwealth, que tanto se prezam e envaidecem pelas visitas que fazem e do serviço público que prestam a países africanos, quando confrontados com a possibilidade de ter descendência negra, ficam inconsoláveis.

Capas de revista que comparavam um bebé recém-nascido a um macaco, que não se continham a fazê-lo de forma ilustrativa, foram publicadas.

A vida nunca será um conto de fadas, nem mesmo a dos príncipes. Uma sociedade retrógrada, mal informada e preconceituosa é a forma de se justificar este tipo de comportamentos inaceitáveis. Mas a certa altura vamos ter de parar com as justificações, vamos ter que deixar de admitir certo tipo de comportamentos, de fundamentar e legitimar peripécias como esta.

Até quando é que se vão aproveitar dos argumentos como “uma sociedade pouco instruída", “as mentalidades é o mais difícil de se mudar” e o “não faz mal, até me acontecer a mim”?


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