A Índole Humana e o Batom


O artista britânico Banksy tem uma obra inspirada em relatos pós Segunda Guerra Mundial relativamente à libertação dos prisioneiros nos campos de concentração. Numa base negra, contrastam traços tanto delicados como robustos, similares às expressões e as feições daqueles retratados por de trás de uma cortina de arame farpado. Numa palete de preto, branco e cinza, destacam-se os lábios pintados de cor vibrante dos prisioneiros. Estariam a utilizar batom.


Um dos primeiros militares presentes na libertação do campo Bergen-Belsen, em 1945, Coronel Gonin, relata: “It was shortly after the British Red Cross arrived, though it may have no connection, that a very large quantity of lipstick arrived. This was not at all what we men wanted, we were screaming for hundreds and thousands of other things and I don't know who asked for lipstick. I wish so much that I could discover who did it, it was the action of genius, sheer unadulterated brilliance. I believe nothing did more for these internees than the lipstick. Women lay in bed with no sheets and no nightie but with scarlet red lips, you saw them wandering about with nothing but a blanket over their shoulders, but with scarlet red lips. I saw a woman dead on the post mortem table and clutched in her hand was a piece of lipstick. At last someone had done something to make them individuals again, they were someone, no longer merely the number tattooed on the arm. At last they could take an interest in their appearance. That lipstick started to give them back their humanity”.



A discussão sobre (suposta) superficialidade da maquilhagem não é recente – nem a incrível dicotomia entre futilidade e a necessidade do papel destes produtos. E, na larga maioria, sempre com a tónica no feminino (mas essa discussão terá de ficar para outro texto). O mundo não parece chegar a um consenso: a definição de como a Mulher se deve apresentar varia ao longo dos tempos, mas a receita é similar; a beleza natural é a desejada, mas constantemente confrontada pelas “técnicas para parecer mais jovem, magra, alta, baixa, direita, para crescer/cortar/pintar o cabelo, para se alimentar melhor” - para, no fundo, parecer melhor - presentes em todas as revistas, jornais, e mais recentemente, qualquer um das Apps nos nossos Smartphones. É esperado que uma senhora esteja apresentável a todas as horas e situações. Ou seja, criamos uma dependência sem assento fixo.


Olhemos para a própria passagem citada supra que relaciona os atos de desespero de prisioneiros que sofreram os horrores dos campos de concentração nazis com o acto de – quase como que um alívio – estas mulheres voltarem a prestar atenção à sua aparência. Efetivamente, aparenta ser um pouco redutor determinar que face ao recente trauma, manter aparências seria o que pautaria a liberação destas pessoas. “These women had gone through hell. Literal hell. Unspeakable crimes were committed against them in their isolation, so is it no wonder that they would cling so desperately to the first token of normal life, of a world outside? It was only a coincidence that the token, in this case, was lipstick”.



Existem divergências quanto a estarmos perante uma possível apropriação do Holocausto e toda a história que o circunda por uma doutrina feminista, que dita este como um importante momento de empoderamento da mulher. A nossa visão tende a discordar: assumindo como premissa que o empoderamento da mulher passe por uma necessidade de se manter apresentável – pela definição de quaisquer bitolas seguidas mediante a época – é grave. Claro, importa ressalvar que o relato em causa chega-nos pelos olhos de um homem, no ano de 1945, o que pode influenciar a interpretação dos comportamentos em causa (seria de destacar que Gonin era britânico, vindo portanto de um reino que só cimentou o direito de voto das mulheres apenas em 1928). Independentemente de ser esse o caso, a ótica de análise devia incidir antes no fator humano. Seria de esperar que alguém que tenha passado dias, meses ou anos encarcerado, experienciando um dos maiores horrores e atentados à Humanidade em solo europeu, se agarre ao quotidiano de forma intensa.


Por outras palavras, não conta o valor intrínseco do batom como objeto, mas sim como uma representação de um feixe ténue da sua vida antiga a ser recuperada por entre os limites do arame farpado. Ou seja, antes de um fenómeno de empoderamento da mulher – que claro está relacionado, objetivamente, com a tomada de posição de elevação da mesma a um estatuto igualitário para com os seus pares – estaríamos antes perante um verdadeiro fenómeno de reiteração da índole humana; uma autêntica e explosiva ode à condição de se ser pessoa.


Bibliografia: