O que fazer com a estátua de um racista?


A morte violenta e a sangue frio do Afro-Americano George Floyd, em Minneapolis, desencadeou, praticamente por todo o mundo, não só inúmeras manifestações contra o racismo, mas, também, levou à destruição de diversos monumentos históricos representativos de figuras que, sabidamente, eram de racistas, supremacistas e de traficantes de escravos. Exemplo disso foi a derrubada da estátua de Edward Colston, em Bristol no Reino Unido.

O movimento vem reforçar a ideia de que a sociedade atual não tolerará mais a existência de fenómenos de discriminação racial, práticas que constituem, nas palavras de VITAL MOREIRA e CARLA DE MARCELINO GOMES: “(…) violações graves e obstáculos ao gozo pleno de todos os direitos humanos e negam a verdade evidente de que todos os seres humanos nascem livres e iguais, em dignidade e em direitos” .


A mesma onda de protestos atingiu Portugal, após a morte do ator Bruno Candé, o qual foi morto a tiros, em plena luz do dia, após, supostamente, lhe terem sido proferidas palavras de cunho racista. O triste episódio, intensificou, novamente, o debate sobre o racismo em Portugal.


É indiscutível a validade da revolta dos cidadãos por continuarem a ser discriminados, quando é indiscutível que nunca o deveriam ter sido em razão da sua cor de pele. Porém, e no contexto de retirar as estátuas de figuras racistas e traficantes de escravos do passado, devemos questionar nos se esta revolta justifica a destruição de monumentos? E como é que devemos refletir sobre isto a partir de uma perspectiva histórica.


O historiador francês JACQUES LE GOFF explica que “A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo monere significa ‘fazer recordar’, de onde ‘avisar’, ‘iluminar’, ‘instruir’”. Isto significa dizer que “o monumentum é um sinal do passado”.