O que fazer com a estátua de um racista?

September 8, 2020

A morte violenta e a sangue frio do Afro-Americano George Floyd, em Minneapolis, desencadeou, praticamente por todo o mundo, não só inúmeras manifestações contra o racismo, mas, também, levou à destruição de diversos monumentos históricos representativos de figuras que, sabidamente, eram de racistas, supremacistas e de traficantes de escravos. Exemplo disso foi a derrubada da estátua de Edward Colston, em Bristol no Reino Unido. 

 

O movimento vem reforçar a ideia de que a sociedade atual não tolerará mais a existência de fenómenos de discriminação racial, práticas que constituem, nas palavras de VITAL MOREIRA e CARLA DE MARCELINO GOMES: “(…) violações graves e obstáculos ao gozo pleno de todos os direitos humanos e negam a verdade evidente de que todos os seres humanos nascem livres e iguais, em dignidade e em direitos” .

 

A mesma onda de protestos atingiu Portugal, após a morte do ator Bruno Candé, o qual foi morto a tiros, em plena luz do dia, após, supostamente, lhe terem sido proferidas palavras de cunho racista. O triste episódio, intensificou, novamente, o debate sobre o racismo em Portugal. 

 

É indiscutível a validade da revolta dos cidadãos por continuarem a ser discriminados, quando é indiscutível que nunca o deveriam ter sido em razão da sua cor de pele. Porém, e no contexto de retirar as estátuas de figuras racistas e traficantes de escravos do passado, devemos questionar nos se esta revolta justifica a destruição de monumentos? E como é que devemos refletir sobre isto a partir de uma perspectiva histórica. 

 

O historiador francês JACQUES LE GOFF explica que “A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo monere significa ‘fazer recordar’, de onde ‘avisar’, ‘iluminar’, ‘instruir’”. Isto significa dizer que “o monumentum é um sinal do passado”. 

 

Explica-nos, ainda, o autor que “desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte. O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos".

 

Assim sendo, os monumentos e a memória a eles associada podem ser fundamentais  para que não se esqueça o passado, para que se aprenda com ele e, principalmente, para que não se cometam os mesmos erros. Tudo vai depender, é verdade, da forma como contamos essa história e as figuras que decidimos cultuar. É, certo que não podemos alterar o passado, mas podemos transformar o presente, com vista a um futuro melhor.

 

Ou seja, mais do que destruir monumentos deveríamos refletir sobre o que os mesmos simbolizam, sobre a evolução do pensamento coletivo no período que medeia a construção dos monumentos (passado) e o momento atual.

 

Tomemos por exemplo, a recente depredação da estátua do Padre António Vieira em decorrência dos protestos de que falamos acima, acontecimento que causou algum alvoroço social, tendo sido questionada a impropriedade de se vandalizar a figura de António Vieira, que para muitos é um exemplo de luta contra os abusos praticados sobre os índios nas Américas, fato que, desde logo, deslegitimaria o movimento por absoluto desconhecimento das históricas figuras.  

 

Embora não seja o melhor exemplo porque o monumento foi construído em 2017, pela Sta. Casa de Misericórdia de Lisboa e colocada no espaço público com aprovação da CML, que não procedeu a nenhum tipo de consulta pública,  e portanto, a citada estátua não poderá ser considerada um artefato histórico, na medida em que não reflete um passado histórico na linha conceitual de Le Goff, mas antes, uma representação recente. 

 

Ora, ainda que o exemplo não seja o melhor, pode servir como um despertar para essa necessidade de reflexão de que estamos a falar. De se pensar, ainda, porque temos uma hipersensibilidade com os monumentos históricos, mas não temos com as pessoas? Isto é, porque nos incomoda tanto a alteração de um monumento, porque temos tanto desconforto em reescrever essa história, mas não temos para com as pessoas. 

 

Ou, alguém já parou para pensar na dor que sente um neto ou bisneto de um escravo ao passar, todos os dias, em frente a uma estátua que enaltece a figura de um carrasco? É, no mínimo preocupante em termos de sociedade,  preocupamos-nos mais com coisas do que com pessoas. Tal fato mostra-nos como ainda temos um longo caminho a evoluir em termos de direitos humanos e empatia.

 

E, tenha-se em atenção, não estamos a defender um possível apagamento da história e um possível atropelamento da mesma. Não. Pensamos que se a opção consistir na destruição de um monumento, no seu local, deveria ser colocado outro que descrevesse o anterior além de se descrever os motivos que determinaram a sua destruição, de forma a contar a história com atenção aos momentos históricos e a evolução do pensamento social.

 

Hoje, os portugueses, na sua grande maioria, não se revêem no pensamento racista. Mas isso não é suficiente para ilidir o racismo que, quer queiramos ou não, ainda é estrutural na nossa sociedade. Daí a necessidade de se repensar as figuras,onde se incluem as históricas e os monumentos, como forma de dissuadir qualquer ideia de segregação racial. Então, consequentemente, temos de atribuir um significado necessariamente  diferente aos monumentos representativos do período histórico que nos remete ao passado colonizador e escravagista.

 

Embora Portugal, não se reveja enquanto um país racista, a  verdade é que a prática continua a existir no nosso país, não sendo , contudo,  reflexo do todo da sociedade portuguesa. Mas apesar disso, a verdade é que, Portugal  ou  pouco ou quase nada se propôs  a refletir sobre a sua responsabilidade — enquanto maiores colonizadores e traficantes de escravos de África para as Américas — no desequilíbrio que esse passado ainda causa hoje nas relações raciais, bem como na sua responsabilidade, ainda que passada, na criação de uma estrutura racial que, infelizmente, ainda persiste em menor ou maior grau.

 

Por este motivo, em vez de se apostar em destruir ou vandalizar monumentos, deveríamos, assumindo a História na sua plenitude, ter orgulho no quanto contribuímos para aquilo que se pode entender pela expansão marítima e primeiras ideias sobre globalização, sem, contudo,  deixar de refletir,  extraindo as respetivas consequências, sobre as práticas indevidas que também implementámos e com as quais não compactuamos mais.

 

É dizer, não nos parece mais possível seguir com essa visão acrítica da nossa própria história, negando a existência de um pensamento racista e segregacionista, porque inevitavelmente este problema continuará a existir. A resolução do problema não passa pela destruição ou vandalização de monumentos públicos, mas sobre estes é indispensável jogar um olhar numa perspectiva refletida para o futuro. 

 




 

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Teresa Morais Leitão 

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