Efeitos secundários da pandemia na igualdade de género


Já foi falado neste blog o problema do aumento do número de casos de violência doméstica durante o confinamento obrigatório na pandemia do coronavírus. Naquela oportunidade, ainda no começo do Estado de Emergência, ressaltámos os perigos que as mulheres poderiam vir a enfrentar num cenário de quarentena com a restrição de liberdade, dentro de casa, com seus potenciais agressores.


O alerta foi feito com base em dados iniciais que chamavam a atenção para o problema de, nas circunstâncias do isolamento social, os abusadores enjaularem ainda mais suas vítimas, já que os pontos de fuga — tais como trabalho, amigos e convivência familiar — estariam suprimidos durante o período de confinamento.


Pois bem. Dois meses depois, a Comissão da Direitos Humanos da Ordem dos Advogados emitiu comunicado a dar conta que as medidas de confinamento fundamentais no combate à doença por COVID-19, aumentaram o risco de violência contra a mulher. Relata a Comissão que foi verificado um aumento de, pasmem, 700% do número de pedidos de apoio em uma linha de emergência no Reino Unido. Simultaneamente, além de trazer o alerta, a CDH pede que o Governo português redobre a atenção para as medidas de apoio às vítimas de violência doméstica, especialmente porque, ao contrário do que deveria ocorrer, nos últimos anos tem ocorrido um menor repasse monetário, a nível mundial, a serviços de apoio a mulheres em risco de violência. E o pedido tem grande razão de ser. Isso porque, como já falamos aqui em mais de uma oportunidade, Portugal é um dos países que registram maiores índices de violência doméstica.


Todavia, os problemas secundários relativos à igualdade de género que poderão decorrer da pandemia do novo Coronavírus não ficam restritos aos casos de violência doméstica. É que, também nos recorda a CDH que as mulheres são as maiores afetadas no ambiente de trabalho. Isso porque são a maioria esmagadora das trabalhadoras na área da saúde. São também as mulheres a maioria das trabalhadoras domésticas, temporárias e em serviços de pequena escala, os quais não apenas são os mais mal remunerados, como também são aqueles que não contam com benefícios sociais. Pior e mais grave: são aqueles que correm o risco de desaparecer em curto espaço de tempo.