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Porque (ainda) é importante celebrar o dia e mês da mulher


Ainda celebrando o Dia Internacional da Mulher e vivendo o mês da mulher o mundo está a falar do vídeo divulgado pela revista Girls. Girls. Girls, protagonizado por Cynthia Nixon, atriz conhecida pelo seu papel na série de televisão americana Sex and the City. No vídeo, a atriz dá voz ao texto escrito à três anos atrás por Camille Rainville, autora do blog “Writings of a Furious Woman”.

Be A Lady, They Said é uma curta prosa que relata as contradições colocadas sobre as mulheres na nossa gerações. Seja uma Senhora, eles disseram. A saia é muito curta. A camisa está muito baixa. As calças estão muito apertadas. Não mostre tanta pele. Seja uma Senhora, eles disseram. Não seja muito gorda. Não seja magra de mais. Não seja muito grande. Não seja pequena de mais. Coma. Emagreça. Seja uma Senhora, eles disseram. Tire os pelos do corpo. Raspe as pernas. Raspe as axilas. Raspe a linha de biquíni. Maquilhe o rosto. Maquilhe os braços. Faça as sobrancelhas. Livre-se do buço. Remova isto. Remova aquilo. Seja uma dama, eles disseram. Não fale muito alto. Não fale muito. Não ocupe espaço. Não se sente dessa forma. Seja uma dama, eles disseram. Não exagere. Não seja tão emocional. Não chore. Não grite. Seja uma Senhora, eles disseram. Não seja violada. Proteja-se. Não beba demais. Não ande sozinha. Não saia tarde demais. Seja uma Senhora, eles disseram. Seja leve. Seja pequena. Seja pequena. Seja feminina. Seja um tamanho zero. Seja um zero duplo. Não seja nada. Seja menos que nada.​

O facto é que, no meio artístico, protestos contra a opressão às mulheres não são novidade. Mensagens impactantes, como foi o caso do vídeo da revista Girls. Girls. Girls, estão sempre a acontecer na internet, no cinema e no mundo da música.

A cantora francesa Angèle, no single Balance Ton Quoi também apontou para as contradições: para uma rapariga linda, não és tão estúpida; para uma rapariga engraçada, não és tão feia. E enfatiza a necessidade de as mulheres exporem seus abusadores e não mais permanecerem caladas diante da sociedade machista: exponha seu abusador, mesmo se tu falas mal das mulheres, eu sei que no fundo percebeste, exponha seu abusador, um dia talvez isso mude.

​​Ora cinema foi ainda mais longe. No filme francês, Je ne suis pas un homme facile, a produtora, Éléonore Pourriat, trabalhou o paradoxismo de uma inversão de papéis, uma realidade contrária num universo matriarcal e de dominação feminina. Nesse universo, são os homens que recebem “elogios” nas ruas, são os homens que cuidam da casa e dos filhos, são os homens que sofrem assédio sexual e moral no trabalho, são os homens que tem de lutar pelos direitos de igualdade. Consegue imaginar o que seria?

A verdade é que o movimento feminista já data de séculos e ainda há muito pelo que lutar, ainda precisamos lutar contra as nossas inquietudes, medo quase-permanente, a sensação de ser um pedaço de carne, o desconforto em sorrir e se mostrar disponível. Só quem se sente mulher sabe a dificuldade que é se fazer ser ouvida, ter mérito, ser reconhecida pelo seu trabalho e não pela sua beleza.

Não faltam relatos sobre situações embaraçosas, desconfortáveis e de total falta de respeito passadas no ambiente de trabalho, na universidade, na rua. Quem nunca ouviu uma mulher contar, aturdida, que foi vítima de assédio? Um dia desses uma amiga passou por uma situação de constrangimento cá em terras lusitanas. Eram três da tarde, estava a caminhar pela Marquês de Pombal, a caminho de um evento para o qual julgou precisar estar “bem arranjada”, logo, usava sapatos de tacão e, simplesmente por esse facto, foi abordada por um homem do dobro da sua idade que, primeiramente simulou precisar de informação para encontrar um restaurante nas proximidades e, após a resposta da rapariga, teve a audácia de perguntá-la “se ela fazia serviços extra”! Sim, estamos em 2020 e coisas assim ainda acontecem. Por óbvio, a rapariga, completamente desolada, chegou a pensar que a culpa era dela por estar em sapatos de tacão, a caminhar desacompanhada pelas ruas de Lisboa. E até quando? O que nós mulheres podemos fazer é declarar a nossa liberdade, liberdade em vestir, comer, falar, sentir e ser o quisermos, porque nós podemos ser tudo, mas não seremos as ladies que eles querem, Be A Lady They Said, Be A woman We Say.

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“SÓ HAVERÁ JUSTIÇA QUANDO TODOS TIVEREM ACESSO À JUSTIÇA”

Teresa Morais Leitão 

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