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Futebol e Direitos Humanos: como relacionar os dois no caso Hakeem?

Atualizado: há 4 dias


Talvez nunca tenha ouvido falar de Hakeem Al-Araibi, tal provavelmente se deve ao fato de que, embora jogador de futebol, um dos desportos mais populares do mundo, Hakeem não figura na lista das celebridades do mundo futebolístico e justamente também por isso sua vida correu grande perigo.

Vou tentar explicar. Hakeem Al-Araibi é um jogador de futebol do Bahrein, um pequenino país muçulmano, localizado no golfo entre o Irã, Qatar e Arábia Saudita. Quando jovem frequentou as seleções de base do país, mas sua promissora carreira e a sua vida, começaram a correr perigo quando, em 2012, Hakeem, e o seu irmão, foram injustamente acusados por agentes policiais de terem vandalizado uma esquadra. A falsidade da acusação foi provada por Hakeem com a exibição de um vídeo em que mostrava que, no suposto momento do crime de vandalismo contra a esquadra, ele estava a jogar futebol com transmissão ao vivo do jogo. As provas, contudo, não foram suficientes. Hakeem foi preso, torturado e, depois, injustamente condenado à revelia à uma pena de 10 anos de prisão.

A jornada como refugiado começou em 2014 quando estava no Qatar a jogar pela seleção nacional do Bahreim. Nessa ocasião Hakeem tomou uma das mais difíceis decisões que afligem a todos refugiados: a de fugir. Fugiu por medo de regressar ao Bahreim e sofrer retaliações. Fugiu porque temia pela sua própria vida. Fugiu porque sonhava em viver livremente sem o fardo de uma condenação injusta.

Assim, na esperança de garantir sua segurança e seus direitos fundamentais, ele partiu em viagem do Qatar até chegar na Austrália, onde pediu refúgio. É certo que a Austrália é um país rigoroso e seletivo no que tange às regras de imigração e pedidos de asilo e refúgio. Não obstante isso, e entendendo a peculiaridade do caso em tela, o país da Oceania reconheceu o status de refugiado de Hakeem ainda em 2014. Desde então ele passou a viver e a trabalhar como jogador profissional lá.

Tudo ia bem até novembro de 2018 quando Hakeem decidiu viajar para a Tailândia com a esposa em lua de mel. Antes da viagem, ele cuidou de verificar todos os detalhes para uma saída segura do território australiano, tendo sido informado pelas autoridades que poderia viajar tranquilamente. Ocorre que um aviso emitido erradamente pela Interpol mudou completamente a vida de Hakeem. Para sua completa surpresa, desde que pousou no aeroporto de Bangkok, a polícia local já estava à sua espera. Com isso todo o imbróglio estava formado. Um aviso emitido errado, um jogador com a vida em jogo.

O problema todo é que a Tailândia não é signatária do Tratado de Imigração Internacional, além de ser um país reconhecidamente duro no que concerne à políticas internacionais. O Bahrein, em dezembro de 2018, solicitou a extradição de Hakeem para que ele pudesse cumprir a pena de 10 anos de prisão que lhe foi injusta e ilegalmente imposta. O caso permaneceu incerto até fevereiro deste ano, mas não se apresse ao desfecho, caro leitor, o caso é interessante pelos meandros que envolvem as relações internacionais em termos de proteção dos direitos humanos.

Isso porque, o caso Hakeem pode mostrar a importância que o desporto e os organismos internacionais, como a FIFA, possuem na proteção de direitos humanos. A luta é diária contra prisões, torturas e condenações injustas, mas é só quando um caso com contornos diferenciados, como o presente, deixa a ferida exposta e nos mostra o tamanho do problema quando se fala em refugiados, risco de vida, e prisões ilegais que algo pode ser feito de forma mais substancial. É dizer, inúmeros anónimos tentam pedidos de refúgio diariamente, outros tantos são ilegalmente presos ou enfrentam imbróglios semelhantes que exigiriam articulação internacional, mas não ganham relevância justamente por se tratarem de pessoas anónimas, desconhecidas.

Ora, como sabido, o desporto desempenha papel fundamental no desenvolvimento social, na medida em que proporciona e estimula qualidade de vida, integração social, cooperação, multiculturalidade e muitos outros valores. O desenvolvimento desses conceitos pode ser vivido não somente mediante a prática diária, mas também pelo clima que um evento desportivo proporciona e pela paixão que motiva jogadores e espectadores.


A universalização do futebol, transformou a modalidade esportiva numa ferramenta importante para o desenvolvimento e promoção de políticas públicas. Significa dizer que o futebol tem a capacidade de integrar e transformar ambientes em nome do bem maior do esporte. Exemplo disso, aqui em Portugal, a Academia do Johnson tem desenvolvido um trabalho inigualável e importantíssimo com jovens e egressos do sistema penal através do desporto para reintegrar essas pessoas à comunidade.

Bem por isso é que a ONU tem trabalhado de forma conjunta com essas organizações internacionais desportivas para juntas promoverem a paz e os direitos humanos, combater a fome e a pobreza, além de problemas de saúde que atingem inúmeros países no mundo.

O caso Hakeem despertou a atenção de organismos internacionais, não só pela gravidade dos fatos, mas também, acreditamos, por envolver um personagem ligado ao mais globalizado dos esportes: o futebol. A FIFA, como organismo político e internacional que é, para impedir a deportação do jogador, interveio junto às autoridades tailandesas, conforme comunicado enviado. As autoridades australianas também estiveram a actuar no caso e a Austrália exigiu, por mais de uma vez, o imediato retorno de Hakeem ao seu território, bem como o Comité Olímpico Internacional. Fatos que demonstram um grande avanço nos tratos em termos de Relações Internacionais e preocupação com os direitos humanos.

É bem verdade que, a despeito da movimentação dessas organizações, as autoridades tailandesas mantiveram sua rigidez no trato legal e negaram o pedido enquanto lhe foi possível. A Human Rights Watch, após a negativa da Tailândia, lançou uma campanha internacional para a imediata liberação de Al-Araibi. Mesmo assim, a libertação de Hakeem só foi anunciada depois que o Bahrein renunciou ao pedido de extradição. Não sabemos, porém se o movimento da FIFA, do Comité Olímpico Internacional e do Governo Australiano serviu para pressionar o Bahrein a desistir da deportação. O que se passou nos bastidores dessa decisão para todos nós será uma incógnita.

De toda forma, porém, houve final feliz para Hakeem que pôde voltar em segurança ao solo australiano. Houve uma bela jogada em equipa e, no final, acreditamos que os Direitos Humanos marcaram um belo golo! A vitória é de todos os que lutaram pela justiça e será sempre dos que jogarem em nome desta equipa.

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“SÓ HAVERÁ JUSTIÇA QUANDO TODOS TIVEREM ACESSO À JUSTIÇA”

Teresa Morais Leitão 

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