UMA VIDA EM SUSPENSE - da tempestade ao recomeço - 

Irina Leegwater Simões - Sofia Antunes -

  A vida da Sra. Gilberta é marcada pelo azar. Após um acidente grave, a doença física e psíquica, mantém força para manter o espírito positivo. A sua vida e o seu espírito conseguem resumir-se numa só palavra, a verdadeira resiliência.

  A sua história de dor física começa desde muito cedo, em que lhe foi diagnosticada uma doença rara chamada Osteogénese Imperfeita ou, como mais bem conhecida, doença dos ossos de vidro. Esta doença genética e crónica é causa da sua pequena estatura e de problemas de mobilidade, o que nos faz concluir facilmente que a sua vida tem sido tudo, menos fácil. Não obstante, a Sra. Gilberta tinha a sua independência, conseguia fazer as suas tarefas diárias sozinha e trabalhava, apesar de com alguma dificuldade inerente à doença. 

  E dizemos isto no passado pois, infelizmente, esta independência terminou com um episódio que só imaginamos ocorrer em filmes.

 

  No início de 2018, a atravessar uma passadeira dentro do recinto do hospital onde era atendida, a Sra. Gilberta foi atropelada por uma ambulância. Em virtude deste acidente, esteve quase 4 meses internada, tendo sido sujeita a 3 operações e a inúmeros tratamentos, sendo necessário, para o resto da sua vida, tomar medicação para mitigar as dores. Deste acidente resulta também que o seu braço esquerdo, o braço com maior habilidade visto que escrevia com ele, ficou completamente inutilizado e, atualmente, a Sra. Gilberta não consegue fazer nenhuma tarefa diária sozinha, inclusive das mais básicas ao ser humano, como comer, vestir-se e tomar banho. Esta situação irá, infelizmente, acompanhá-la até ao fim da sua vida, sempre com muitas dores e com a necessidade de uma cuidadora para a ajudar nas suas tarefas diárias.

  Felizmente, a seguradora da ambulância começou por assumir a responsabilidade do acidente e a suportar as despesas da Sra. Gilberta, designadamente os tratamentos, medicamentos e cuidadora. No entanto, rapidamente se concluiu que isto não era, de todo, suficiente. A Sra. Gilberta, todos os meses, tinha de enviar as despesas à seguradora e esperar pelo seu pagamento ou o seu reembolso, muitas vezes tardio e, por vezes, só com alguma insistência e já com quase dois meses de atraso procedia ao pagamento. Isto fazia com que todos os meses se deparasse com uma grande ansiedade, a sua parca reforma não conseguia suportar todas as suas despesas, que por vezes ascendiam aos 2000€. E mais, o sofrimento a que foi sujeita não poderia apenas ser acompanhado por este suporte de despesas, era necessária uma indemnização pelos danos não patrimoniais, isto é, por toda a situação traumática que passou, pela incapacidade resultante do acidente que resulta numa angústia constante.

  E é aqui que entra a PRO BONO que, um ano decorrido do acidente e após pedido da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, aloca o caso da Sra. Gilberta ao advogado Dr. André Steiger Garção e a mim, na altura aluna Irina Leegwater Simões, que trabalharam incessantemente para chegar a um consenso com a seguradora que resultasse em algum alento e dignidade para a Sra. Gilberta. Após um ano e meio de negociações, de telefonemas e trocas de e-mails com a seguradora, chegámos a um impasse, o prazo para eventualmente intentar uma ação judicial estava a terminar e ainda não tínhamos acordo. 

  Em finais de dezembro, e numa última tentativa conseguimos, por via extrajudicial, chegar a um consenso com a seguradora, que pagou uma indemnização adequada à Sra. Gilberta!

  Hoje, e graças à PRO BONO e seus parceiros, a Sra. Gilberta tem a possibilidade de se encaminhar para um Lar, onde pode recomeçar a sua vida e passar o resto dos seus dias com cuidados permanentes e com a dignidade que merece.

Irina Leegwater Simões/ Sofia Antunes